Será que existe o olhar em SP

Por Débora Duarte

O Terapeuta, Magritte (1941).

Foi numa destas tardes cinzas de fim de inverno, que comecei a pensar no invisível instalado na cidade de São Paulo. Caminhando sem muitas pretensões por uma movimentada rua da zona sul, percebi aquilo que, passando pelo olhar, ao mesmo tempo consegue ser-lhe oculto: a experiência humana. A experiência tem se resumido à capacidade do “ter” e não à capacidade de “ser”: sou pelo que tenho e  o que tenho é dono de mim. Pretendendo-me como possuidor, quase não me dou conta de que sou a coisa possuída e num movimento, acentuadamente, paradoxal sou possuído pelo invisível.

Os engravatados, ou não, caminham despercebidos entre si: se olham e não se veem ou se intentam se ver, não se enxergam. Mais incrível ainda foi quando me dei conta de que também era parte constitutiva deste invisível. A invisibilidade está entre nós: nos nós que se entrecruzam e se emaranham, nos olhares que se desviam, na insistência da velocidade, no gesto íntimo com o aparelho tecnológico, no desamor. Desaprendi a olhar o outro pelo simples fato de que não consigo, não quero ou tenho medo de olhar, profundamente, a mim mesmo. Tornaram-se visíveis as invisibilidades,  porque esquecer-se de mim e do outro se tornou hábito.

Durante a caminhada, sutilezas saltaram aos olhos. Senti-me dirigindo uma película almodovariana ou pintando uma tela “a la Magritte”. A primeira imagem à qual me detive foi à de um ônibus paralítico, ante uma fila de espera. De fora via um amontoado de pessoas que, ocupadas com o que se passava externamente, não olhavam para o fenômeno que ocorria lá dentro. Fiquei a observar aquele ônibus, aquelas pessoas, o engarrafamento e em circunstância alguma me senti olhada ou enxergada por alguém. Era um olhar dissipado, perdido entre fumaças e buzinas. Pelas minúsculas janelas, entrecortadas pela opacidade do pó, era como se mirasse a quadros numa destas feiras de exposições surrealistas.

Como no enredo de um destes conhecidos romances contemporâneos, me senti numa cidade cega. Vi cegos que perambulam pela simples necessidade de sobrevivência física, e em sua maioria movidos pelo próprio esquecimento. Alimentados por necessidades que sequer reconhecem. Carentes da essência de suas condições reais. Oblíquos, dissimulados e ensaiando uma vida mesquinha, esta pintada às duras penas, enfim: amalgamados ao cinza da cidade e já enterrados para si mesmos.

Imagens disponíveis em: http://vilasertillsammans.blogspot.com.br/. Acesso em 21 de setembro de 2014. Mais sobre a autora na página de Colaboradores da Escrita Pulsante.

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