Muito melhor é o silêncio

Por Marcos Improta

Parafraseando o inconsciente baiano: “na Bahia a gente não nasce, se estressa”.

A Copa acabou. Não mostramos nada de novo ao mundo. Em quatro e quatro anos o Olodum aparece na Globo com a mesma batida. O que aconteceu com a cultura multilateralista e experimental de Salvador? Nada mais é palpável como referencia estética. O rock vive perdido no tempo em botecos undergrounds cover de si mesmo, a literatura quase não existe mais e a poesia é um delírio com seus sarais anticépticos, entupidos de universitários com discursos esquerdistas tão vazios e sem vida quanto os versos gritados lá de dentro. Tudo por aqui enche o saco.

Parece-me que nossa juventude adora curtir uma “(re)invenção regressiva”. Banquinho e violão, letras soando intelectuais, imobilidade, “tropicanalhismos” puro. Garotos querem ser Caetano, meninas imitam Elis. Jabá bem passado. Axé sempre em dia com o seu atraso. Pequenas imitações em série. Discursos sempre sobre amores bestiais, saudosismo e adolescência de classe média.

Foto: Raquel Gomes

Foto: Raquel Gomes

Não existe uma dialética plausível, nem chance para uma antítese. Apenas a tese engessada, forjada no espaço público – controlado pelo discurso histórico étnico transcendental – de que nossa cultura se origina de um primitivismo bárbaro Afro-europeu e deve se norteada por esse viés dionisíaco e só assim construir a verdadeira identidade de um povo que tem como sua marca maior a miscigenação. Não cabe lugar para a ousadia e a experimentação. Só para o cover do passado.

Pois ficou claro, malandragem não ganha Copa do Mundo, ignorância não constrói democracias, musica não se faz com a mesma batida, a arte não pode imitar a vida, a educação humana não pode ser estatizada, nem tudo que reluz é pop e “beiço de jegue não é arroz doce”. E excelência no Brasil, só se for Vossa. Daqui a quatro anos, o Olodum com a mesma batida e o nosso país com as mesmas feridas.

Sobre o autor:

foto marcosMarcos Improta, 31 anos, é jornalista, escritor e colaborador da Revista Escrita Pulsante.

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