As ruas da infância

Por Felizardo T. B. Costa

Foto: Raquel Gomes

Foto: Raquel Gomes

Uma das relações mais comuns feitas entre a infância e a rua é de vagabundagem, ou seja, se uma criança está na rua, está fazendo algo errado. Essa relação não é totalmente nova, pois, a história mostra-nos muitas vezes cenários sociais em que a rua se tornava quase sempre o lugar de órfãos, pequenos abandonados, ou que foram transformados em vulnerabilizados devido a um processo socioeconômico de exclusão.

Este panorama justificou na Europa e inclusive no Brasil na década de 1850 o recrutamento de crianças muito pequenas, para o trabalho nas fábricas, às vezes de 5 e 6 anos de idade, submetendo-as a regimes de 12 horas de trabalho, retirando-lhes inclusive legalmente o direito de aprenderem a brincar antes de lidarem com à perniciosidade do mundo do trabalho, ou seja, não haviam muitas leis que as protegiam e quando o Estado legislava não era para proibir o trabalho infantil, mas apenas para oficializá-lo, justificando esta ação como uma medida educativa com fins formativos, algo bastante discutível, pois só atingia crianças filhas de famílias pobres, ou aquelas que viviam em asilos para órfãos e estas últimas eram alugadas para o trabalho nas fábricas.

Mais recentemente, alguns países tiveram conflitos militares tão longos e violentos que acabaram por produzir um número muito grande de crianças desabrigadas, ou abrigadas na rua, dependendo apenas da solidariedade entre elas, ou de uma bondade interesseira de adultos que se aproveitavam da sua situação para explorá-las com a realização de atividades degradantes.

Na década de 1990, como resultado de uma guerra civil que durava desde 1979 e de um processo eleitoral mal sucedido, o número de crianças de rua, em Angola, teve uma importante galopada, os chamados “meninos de rua” (que incluíam meninas) estavam em todas as cidades e infelizmente os abusos contra elas se repetiam com frequência assustadora. Apenas no início dos anos 2000 com o fim da guerra esses números foram diminuindo, porém, os meninos de rua não eram os únicos que estavam na rua. Ela era partilhada por outras crianças que possuíam a proteção das suas famílias, não eram órfãos e nem eram forçadas por contingências socioeconômicas a se submeterem às mesmas formas de exploração das outras.

Elas estavam na rua por um motivo diferente. Estavam lá por que a rua era na verdade um espaço de convivência, um lugar para desenvolver brincadeiras e descobrir o mundo. Tudo aquilo que não podiam fazer entre as paredes das suas casas podiam fazer ali, desde jogar à bola, até as brincadeiras do salta-a-corda, a macaca, bandeirinha, bananeira, esconde-esconde, bica-bidon, entre outras invenções particulares de uma infância profícua em brincadeiras de rua, em suma, lá se fazia a reinvenção do quotidiano infantil, pois, com as dificuldades sociais da maior parte das famílias, elas tiveram que aprender a inventar os brinquedos de que precisavam para se divertirem, assim abandonaram as paredes de casa e se encontraram do lado de fora, na rua, e transformaram este espaço num lugar potente de reinvenções, juntando o que ela oferecia para construírem seus brinquedos e brincadeiras, promovendo a sua criatividade e livre expressão artística, ou seja, dando-lhes a oportunidade de serem crianças na sua plenitude, garantindo para elas aquilo que muitas hoje têm perdido por causa das invenções tecnológicas que as têm forçado a ficarem trancadas dentro das suas casas, roubando-lhes a oportunidade de usarem a rua para explorarem a vizinhança e descobrirem o mundo à sua volta, interagirem com as outras, inventarem brincadeiras e atualizarem tradições infantis antigas e principalmente, aprenderem que a rua (e o mundo) também pode ser divertida e não apenas perigosa como a televisão insiste em proclamar.

Essa é uma relação com a rua, que nos esquecemos de cultivar e ensinar às nossas crianças, que infelizmente se perde quando se troca a oportunidade de correr descalço pela calçada, ou pelo chão de terra batida como acontecia em muitos bairros angolanos, pelos jogos de computadores, vídeo games e relações artificiais nas redes sociais, que fazem com que elas nossas crianças nem sequer aprendam como são deliciosos os encontros e desencontros com e na rua. E ao pensarmos sobre que relação é possível entre a infância e a rua, sem dúvida ela poderá começar por ser: – Aprender como é a liberdade. Neste sentido tirar as crianças da rua pode ser na verdade uma medida preventiva para evitar que no futuro os adultos também ocupem a rua com manifestações culturais ou políticas, por que a única coisa que aprenderam sobre a rua, é que ela é perigosa.

Sobre o autor:

Felizardo Tchiengo Bartolomeu Costa (31) é angolano natural da província do Bié aos 24 de Junho de 1983, mas reside no Brasil há cerca de cinco anos. É formado em Psicologia pela Universidade Agostinho Neto de Angola, doutorando do curso de Psicologia na Faculdade de Ciências e Letras de Assis/Unesp. É escritor iniciante e tem publicados os livros: O lado obscuro do amor (2010), A prostituição do politicamente correto (2013) e Significando práticas e praticando significações: professores e o significado do trabalho (2014), que podem ser encontrados no blog de crônicas que mantém desde 2009.

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