A culpa é do eu

Por Reinaldo Dias

Foto: José Luis Barreiro Garcia

Foto: José Luis Barreiro Garcia

Uma hora na fila para comprar o ingresso, assento próximo à tela do cinema, os piores lugares para assistir a um filme! Término da sessão, lágrimas, choros, nariz entupido; eis o resultado de um filme originário da literatura Y.A, sigla em inglês para Young Adult, isso mesmo, jovem adulto. Essas histórias são elaboradas e pensadas para um público transitório que se encontra entre a puberdade e a vida adulta.

Com personagens planas, sem grandes reflexões filosóficas, John Green arrebata um milhão de espectadores para as telinhas tupiniquins, com a história de amor entre Hazel Grace e August Wartes em A culpa é das estrelas.

A escrita é sem metáforas, conforme a definição do próprio John Green. Com esta linguagem clara e econômica, o autor escreve com estruturas linguísticas típicas de histórias mitológicas, ou seja, uma linguagem traduzível para qualquer língua sem nenhuma perda de sentido durante a sua trajetória. Portanto o livro/filme têm elementos estruturantes que o torna universal.

É com simulacros bem definidos que Green constrói o caminho narrativo de Hazel e August. Logo no primeiro capítulo, o primeiro contato das personagens principais ocorre em um grupo de apoio para crianças com câncer, afinal, ela foi diagnosticada com câncer na tireoide aos trezes anos, e ele teve a perna amputada, devido a um tumor.

Sem segredos, John preenche todos os arquétipos de uma bela história de amor e com algumas pitadas de complicações, como um desejo que será realizado por Hazel de ir a Amsterdã para conhecer o seu autor predileto, e, como não pode faltar um galã com um corpo atlético, o ex-jogador de basquete, sem uma perna, August, completa o cenário para uma bela história de amor e superação.

A história de amor sólida faz sucesso em tempos líquidos. Atualmente, as relações amorosas são voláteis, os casais se relacionam imaginando a separação; laços afetivos são como o gás hélio, se dissipam no ar. John Green faz mulheres chorarem como meninas e homens soluçarem como crianças, mérito para o autor que em época pós-moderna de subjetividades fragmentadas cria uma história universal, a qual suscita no expectador afetos sólidos, como compaixão, tristeza, e faz com que tais emoções manifestem-se em lágrimas, como uma espécie de purificação da alma.

Mesmo com todo o discurso proferido pelos jovens “eu pego, mas não me apego”, a sociedade ainda externa o desejo de acordar com uma mensagem de bom dia enviada pelo amor, jantares a luz de velas, picnic em um cenário bucólico, tudo isso regado com gotas de amor. Embora o cotidiano nos mostre a cada momento que o amor é efêmero, assim como um smartphone, o inconsciente do amor perene materializa-se em lágrimas, no momento em que a felicidade não é mais imanente, mas sim transcendente. Ela está no carro na garagem, no celular, na roupa, em suma, no possuir. Em Shakespeare, Cassius diz: – o homem é dono de seus fatos -, mas o cotidiano nos revela o contrário. O sujeito é oriundo de uma conjuntura social arraigada no ter, que está para além de suas vontades conscientes, no hoje até o choro é previsível, tornando-se pó de estrelas.

Sobre o autor:

Formado em Letras, há muito tempo que as palavras rondam a minha cabeça, e por isso escrevo. Escrevo porque preciso. A folha em branco é o meu divã, o pensamento meu analista, já a escrita, esta pulsa em mim. Como profissão, escolhi ser professor, mas como não vivo de sonhos e ideais, também sou corretor.

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