Há cura para os males do dia-a-dia?

texto dennis

Arte: Raquel Gomes

Esta pergunta me perseguiu muito durante os últimos tempos e por conta dela pude vivenciar experiências inebriantes no universo da poesia. A princípio pode soar estranho quando se fala em males do cotidiano, mas não é quando se constata que o principal sintoma social, na minha concepção, é a própria alienação. Porque há diariamente um bombardeio de estímulos ao consumo. Porque prédios e muros enrugam a pele de concreto. Porque carros e congêneres entopem as veias urbanas. Porque a bur(r)ocracia de enésimas repartições desafia a pa(z)ciência. Porque em toda sala de estar há uma sofisticada caixa de pandora que anestesia famílias a fora. Porque ainda existem pessoas destituídas de tudo e jogadas nas calçadas. Porque a riqueza de poucos se baseia na pobreza de tantos. Porque a paz e a tranquilidade se camuflam e ocultam o caos e a loucura das ruas. Porque a cidade é o panótipo em sua máxima expressão. É por tudo isso e muito mais que a poesia e o poeta se fazem necessários, e os saraus se tornam verdadeiros rituais  emancipatórios e de cura. Apesar de não precisar de justificativa, de uma razão de ser, a não ser ela própria, a poesia passa a ser ainda mais fundamental nos dias de hoje, como um medicamento que apoteoticamente causa o aprofundamento da consciência de si mesmo, do outro e da realidade. O poeta então acaba se imbuindo de uma função nobre, a despeito de quase nunca ser reconhecido como tal. Uma função de devolver a humanidade perdida, tomada, ou escamoteada. Os saraus, como os que eu vivenciei e também tive a oportunidade de cocriar, transmutam-se em um momento de ruptura com alienação em massa e de celebração do reencontro com a essência humana através da arte, propiciando um prazer muito intenso a todos que se envolvem, de modo que uma mente que se abre a um verso, jamais volta a alienar a si mesmo. Assim, a cura para os males do dia a dia, não é nada mais simples do que doses diárias de poesia… eis aí a resposta (ou para alguns, incógnita)!

Por Dennis Faria

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