Greve de professores: uma história de luta e desilusão

Entre o dizível e o indizível começa uma história cuja memória midiática tratou de apagar de suas notícias. Em 2000, ocorreu no Estado de São Paulo uma manifestação de professores que culminou em um acampamento que acoplou outros integrantes à causa dos professores. Eclodiu, deste acampamento, um debate acerca do ensino público. Entre as barracas dos acampados aconteciam fóruns e debates sobre o universo educacional. Alguns entendiam e participavam, como os estudantes, anarquistas e outros engajados em movimentos sociais; outros não entendiam nada, mas compunham a massa que os acompanhava, conta-nos João, entre pausas de silêncios.

materia joaoA cobertura do episódio gerou interesse da mídia, que começou a visitar o acampamento, mas os debates que surgiam por entre as barracas estavam longe de tecer as linhas das páginas do noticiário da cidade de São Paulo. Em frente à Secretária do Estado de São Paulo, as conversas sobre o processo de tecnização do ensino, as precariedades das escolas, não pareciam verossímeis.

O não dizível condenava os professores à má sorte. Ou melhor, o indizível traçava o destino de João à marginalidade e à desilusão, pois ele foi exonerado de seu cargo de professor por aderir ao acampamento. Foi considerado da ala radical dos manifestantes; incumbido de responder à punição com seu ganha pão, ficou desiludido com os movimentos sociais.

Enquanto os professores e a APEOSP comemoram o bônus conseguido pela luta de um coletivo de professores, João toma seu café, come seu pão. Discursa sobre suas estadias em albergues, fomenta no seu misto quente as lembranças do acampamento. Os educadores comemoram o ganho da manifestação de 2000, enquanto João vagueia pela Universidade de São Paulo partilhando suas experiências com os estudantes cruspianos. Café com pão e sua memória verbaliza o abuso de poder do então governador de São Paulo Mário Covas, que, junto à polícia militar, entrou com tudo no acampamento levando ao confronto de professores e policiais. Ainda assim, os manifestantes organizaram-se para formar um segundo acampamento.

“O Covas apareceu com a Rose Neubauer, ninguém gostava dela”, murmura. “Os dois entraram e ficaram um tempão, por lá. Aconteceu outro pauleiro. Uma parte voltou em cana. Foram cinco ou seis presos na confusão, todos processados por desacato: ao governador e à polícia. Aqueles que foram presos ficaram um mês no Terceiro Distrito, Rio Branco; todo processo criminal está neste distrito. Se não bastasse, ocorreu demissão por justa causa”.

“Acontece que o Covas já estava em Estado avançado de câncer. Com isto, todo mundo ficou livre por parte do processo criminal. De repente, o assunto acabou e o processo até hoje permanece em aberto. O Tonhão, que é o cara mais velho, teve sua aposentadoria suspensa. O pessoal da manifestação que era vítima foi transformado em bardeneiro”.

Estes acontecimentos são relembrados por João, que retoma seu raciocínio após uma pausa demorada. “O Melquior foi o policial que chegou para desalojar os acampados, a APEOSP interviu. As negociações rolaram durante a madrugada, a greve acabou”.

“Alguém pergunta ao Melquior: O senhor é marido da professora Maria Helena Melquior? Então, o senhor sabe a realidade do ensino? O senhor concorda com isto?”, “Pessoalmente, não”, responde o comandante.

Melquior cumpre ordens e a ordem cumprida leva João ao desemprego. Consternado, diz o que restou de sua utopia pela luta por uma educação melhor: desilusão.

materia joao2E este é um passado que se repete, hoje, nas repetitivas greves e passeatas da categoria de ensino pela nossa São Paulo: a constante batalha entre as forças públicas que servem ao cidadão (ou supostamente deveriam servir), educação x segurança pública. O embate está aí, ocorrendo anualmente, diante da tv e dos nossos olhos de passantes. Melquior disse, no passado, que achava justa a greve, porque tinha ao seu lado uma professora e conhecia muito bem as suas condições de trabalho.

Hoje, outros Melquiores lutam contra suas esposas, seus filhos funcionários da educação, para manter uma “ordem” estranha e injusta, que oprime o lado mais fraco, e do qual inclusive fazem parte.

Ao ser questionado se há esperança, ainda, em relação às mudanças em nossa sociedade por parte de nossos governos, João cruza sobre a mesa as mãos sujas que antes seguravam gizes, balança a cabeça negativamente, dizendo com voz e olhos baixos que não, não há esperança de mudança.

Reportagem: Priscila Silva e Raquel Gomes. Fotos: Raquel Gomes

Um comentário sobre “Greve de professores: uma história de luta e desilusão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s