O belo e o feio sob o olhar dos moradores de rua da Praça Roosevelt

Era para ser apenas mais um trabalho. Havia um tema, um objetivo, um público-alvo. Tudo era bastante lógico. Havia um plano. Nós, entrevistadores, não conseguimos não ter um plano. Ter um plano é ter um lugar seguro, uma fortaleza. O entrevistado, Ricardo, entre 35 e 40 anos, cabelos curtos e levemente grisalhos, voz suave, sorriso sujo, não tem um plano diário. Não tem uma fortaleza, e nem mesmo um teto. Ah, espere, tem um teto: seu teto são as copas das árvores, que contempla todas as noites antes de dormir, como ele mesmo conta. Ao ser questionado sobre o que é belo na cidade de São Paulo, mais especificamente no entorno da Igreja da Consolação, local onde se encontrava, esta é a sua resposta: “a copa das árvores que vejo todos os dias, antes de dormir e ao acordar. As pessoas dizem que não tem verde em São Paulo, apenas concreto. Mas eu digo que tem, sim, muito verde, é só olhar. Eu gosto do modo como os galhos e a copa das árvores abrangem as ruas, como se fossem as grandes mães”.

O ex-músico conta que é de Porto Alegre, vivera no Rio de Janeiro por 10 anos, de 2003 a 2013, e que faria 1 ano nas ruas de São Paulo. Diante da segunda pergunta tema da entrevista, o que seria feio, em sua opinião, na paisagem paulistana que nos cercava, Ricardo desconstrói: “feias são as atitudes das pessoas, o caráter, o modo de pensar. A cidade não é feia, algumas atitudes é que o são”. Com esta resposta, Ricardo desarranja estruturas, dentre tantas verdades e pré-conceitos e pré-julgamentos que temos à primeira vista. A objetividade da pergunta que, em princípio, tinha cunho estético desmantela-se. A resposta esperada deveria ser algo tangível, “fotografável”, concreto. Feias são estas pichações, esta sujeira que corre pelas guias, estes prédios abandonados de janelas quebradas: a resposta, pronta e óbvia, dos cidadãos prontos e óbvios.

materia3Mas Ricardo não segue o script, assim como não segue nenhum plano. “Feias são determinadas atitudes, pensamentos, isto não podemos fotografar ou registrar em imagens”. Porém, o Ícaro tatuado em seu braço transgredia o registro de sua liberdade: o homem que acorda sob a copa das árvores é livre.materia2

Ao ser abordado, Ricardo lia uma edição da Revista National Geographic Brasil. No primeiro momento houve uma resistência à entrevista. Passado o instante, a conversa começa. A tatuagem do anjo caído apresenta-se como inspiração para o início de uma prosa-poética. Uma imersão em suas palavras ‘soltas ao vento’.

A sua sensibilidade reverberava na imagem do Ícaro, as expressões de suas mãos anunciavam um homem com uma percepção estética humana. O belo não estava calcificado em si mesmo, mas transgredia a moral do que a sociedade considera como padrão, instituição e formato, porque seu conceito de belo ultrapassa a vida na prisão social. Os formatos e moldes sociais são diariamente legitimados por nós, os cidadãos da “normalidade”, da vida regrada que segue o script. Os indivíduos que não aceitam tal legitimação e saem do círculo são os “estranhos” produzidos por esta mesma sociedade. Seria este o motivo de nossa desconstrução e mal-estar?

O estranho que se apresentava renunciara aos moldes e deixara a prisão, incomodava com a sua liberdade, com a sua coragem, com os seus ideais fora dos padrões aos quais estamos presos. O estranho é assim absorto das proibições. Clareia por meio de suas palavras obscuras o mundo abarrotado de prisão estética, moral.

A intenção era interrogar o extremo do que a sociedade considera “feio” e “repugnante”: a sujeira que deve ser escondida embaixo do tapete social, os homens dos subterrâneos da nossa civilização, para vasculharmos o que é o feio e o que é belo sob os seus olhares, enquanto indivíduos invisíveis e excluídos (sendo a palavra “excluída” utilizada da forma mais ingênua possível). O julgo estético, destes homens da rua, compreende um conceito que humaniza na arte a ação moral dos seres humanos. O sujeito é arte; a subjetividade é enxergada como lugar estético.

A civilidade imbricada com seu projeto de beleza, que nos leva ao ideal de pureza, não se reflete no olhar de Ricardo, porque o coração possui este ritmar de visão. Então, ele – o coração – porta, ou não porta beleza e feiura. Nas palavras convulsionadas ao vento, Ricardo assopra: O que é de ruim mora no coração do homem, como o que há de belo também. Os moldes enrijecidos na beleza aportada pela civilização são estremecidos. A beleza como coisa inútil a que se referiu Freud entona-se na relatividade de seu conceito.

Chegamos à queda de um imperativo. Culturas, olhos fazem a beleza. Ao reverenciar uma beleza civilizacional, deparamo-nos com uma concepção diferente da esperada: um julgamento moral que nos mostra os olhares a nós lançados de baixo, enquanto caminhamos. Acalentam-se por detrás das árvores onde se escondem, ou, ainda ficam nos subterrâneos onde nós mesmos os escondemos para não nos incomodarem.

No decorrer da entrevista, Marcos, amigo de Ricardo, também morador de rua, acorda. Também tem entre 35 e 40 anos e é de Curitiba. Andavam com outro companheiro de Santa Catarina, “formávamos a tríade do Sul”. São frequentadores de um pequeno espaço cultural próximo à Igreja da Consolação, o Matilha Cultural. Lá assistem filmes, inclusive os da Mostra Internacional de Cinema, e visitam exposições, tudo gratuitamente, e conversam sobre cinema e sobre Fellini. Mais desconstrução. Quem disse que moradores de rua não entendem de cinema? O nosso pré-conceito diz. O pré-conceito de toda a nossa sociedade diz, e o nosso espanto apenas reproduz o discurso, sem palavras, em nossos rostos.

Rostos que querem manter na invisibilidade todos os seres humanos, aludindo a eles a perturbação da ordem. Assim, são os olhos que são lançados a outro entrevistado: o senhor Fernando. Na ausência de um teto, a rua transparece-se em dignidade na fala que é, muitas vezes, abafada pela passagem de um caminhão. O motor ronca como o estômago deste homem moreno. Os olhos de Fernando são seguros, a palavra agressiva, porque denuncia em suas narrativas um cotidiano invisível cuja alegria faz-se no partilhar o pão com seu companheiro de rua: Cleber.

Ambos unidos partilham o único pão conseguido no dia. Felizes com a cumplicidade, um apara ao outro, rasgam o pão e os farelos espalham-se pelo ar. Sorriem e dizem: “isto é beleza”. Sociólogo por sabedoria começa sua aula de ciências políticas sentado no chão de concreto. Tranquilamente, acusa o rumo da política. Diz que a copa está imbuída por projetos que o fazem lembrar a ditadura militar. Sorri. Estende os braços, roga: uma moeda, por favor. O transeunte passa indiferente, ele continua seu discurso político coerente. Designa ao governo, ao congresso a feiura do mundo, a falta de oportunidade para homens que chegam aos 60 anos sem emprego.

Aponta para seu amigo, “olha: ele tem 33 anos”. Fragilmente, Cleber pega a sua carteira de trabalho que estava enrolada em um saco plástico limpo. Desenrola-a e a enrola de novo. A carteira vai para um lugar mais invisível que ele. A câmera treme, a atenção volta-se para Fernando. A desconfiança de Cleber vasculha os cadernos, as letras para saber quem somos – os entrevistadores. Fernando continua sua dissertação crua da realidade. O feio encontra sua forma política na corrupção, na bandalheira, no descaso para com todos os cidadãos. O feio é o feito humano. A ação do congresso é feia, dócil entrega.

A realidade política do Brasil documenta-se em sua visão de mundo, o feio caracteriza-se por enxergar as entranhas dos mecanismos sociais os quais se quer silenciar. E, não serão estes homens das ruas, os primeiros que designam em nosso desejo a necessidade de seu silenciar?

O estrangeiro por nós é motivo de indignação, já que ele atrela-se a ordenação do nosso cotidiano, perturbando em nosso script o funcionamento da vida contemporânea. Todas as premissas de nossas vidas estão estabelecidas em um lugar compreendido por nós como seguro. O lugar do consumo cujo desejo submete-se às relações de compra e venda. A vida, então, arranja-se pela organização do local que pretende sempre renovar o nosso modo de organização partilhando na limpeza o anseio pela ordem extrema. Os lençóis que cobrem o corpo de Cleber, Ricardo, Fernando, como tantos outros moradores de rua, são objetos de nossa repugnância. Logo, a beleza não poderia estar ali.

A limpeza e a ordem compreendem-se, mutuamente, como fundamento para endereçarmos aquele que nos retira do lugar, como sendo parte da sujeira que deve ser eliminada, varrida para os subterrâneos, ou mesmo, exterminada. Baratas e seres humanos tornam-se objetos da mesma ordem, porque todos que não alcançam nosso sonho de pureza abalam o modo como constituímos o dia. O estrangeiro “tem o impacto de um terremoto”, já que não divide a vida diária que habitamos.

A rotina a que somos acometidos nos coloca em estado da ação conforme a normalidade, todos os passos estão no ritmo. Os disritmados, os sujeitos que, com sua disritmia, causam as dissonâncias as quais queremos abafar da estética do cotidiano ressoam na cidade, ferozmente, subversões perante nosso ideal de pureza. Tal como arremeda o músico, Clemente, da banda punk Os Inocentes, com sua concisão: “o feio pode ser encantador”.

materia5Entrelaçado no movimento estético punk, o belo clássico é discutido e relativizado. Os nossos olhos, na autonomia de ser humano, é que vão endereçar ao mundo coisas sobre a beleza e a feiura. Contra a moral que verseja uma estética baseada nos postulados clássicos, o punk cria um novo texto para a vida cotidiana, pois o feio é belo e o belo é feio.

Os homens dos subterrâneos não encarceram a vida, nos faz entender o vocalista. A relativização do gosto nos arremessa à estética humanizante. O bonito, logo, torna-se o mundo, como nos diz o senhor Chico Pirata. “O mundo: eu amo o mundo, é lindo”. Esse entrevistado simpático, terno, cheio de alegria pelo mundo e pelas pessoas, interrompe todo o momento a entrevista para estender as mãos e lançar um simples oi, um entusiasmado boa noite. Sobriamente, perguntado sobre a beleza, canta: “o que é bonito? Essa música é linda”.

Suas mãos, antes cumprimentando os passantes, agora dançam. O Sr. Chico não sabe o quanto a sua alegria é bonita, mas a câmera a registra com a intenção de quem pretende captar seu sorriso que impregna a Praça Roosevelt, cheia de pessoas atentas a uma peça teatral da companhia Galpão que estava acontecendo, enquanto Chico deslumbra-se com a primeira obra de teatro vista na vida.

Chico gritava: “olha a dança. Olha que bonito”. Momentaneamente, um ator fantasiado de clown atravessava nosso caminho. Comovido, o senhor de olhos multicor agradava-se com a vista pronunciando a palavra: bonito.

materia4Todas as coisas estão passíveis de beleza, inclusive o ato, a ação do ser humano. Disto não escapa a feiura, já que ela também é relativa. É múltipla como as pessoas que habitam as ruas o são. Ricardo ressalta a intenção do feio em seu argumento, fazendo do simples ato de pensar, algo passível de ser considerado feio, desprezível. Clemente, por sua vez, vê atratividade na feiura, e a beleza na criatividade. Chico Pirata, num momento de reflexão sobre a feiura, a expressão séria, destaca a feiura da cadeia, da maldade, dos assassinatos.

Diante das entrevistas com os moradores de rua, outros questionamentos foram surgindo, outras concepções de estética e olhares sobre a beleza paulistana que não as visíveis, aparentes e imagéticas, mas sim uma concepção de estética da moral do ser humano: o homem como objeto de análise do belo e do feio em relação às suas atitudes, ao seu modo de pensar, e, por que não dizer, em relação às suas verdades.

Hegel deslumbra a humanidade com uma compreensão da beleza que vai para além do corpóreo. A arte clássica enraizada nos ideias de uma forma estética objetiva é submetida “a alma em si mesma”. O interior do ser humano, então, é vislumbrado como beleza, ou feiura. É a interioridade, o conteúdo que está em nosso ser que identifica a beleza e a feiura. No lugar da subjetividade humana podemos denominar os atributos estéticos da pessoa. O não “fotografável” busca sua forma para ser visível.

O cidadão cordial, educado, consciente de sua participação no círculo social, que respeita o outro, poderia ser considerado um indivíduo belo? Aparentemente, sim. A feiura, no entanto, vai mais a fundo e atinge a essência, abrange os preconceitos, os julgamentos já providos de sentença, que condenam ou absolvem sob os mais rígidos padrões. E, a pena é dura. A invisibilidade forçada que exclui e isola um ser humano que nasceu para viver em sociedade, e que, filosoficamente falando, só é em relação ao outro, ou que se reflete no outro quando se mostra. Seria muito mais fácil julgar a beleza corpórea e padronizada, o senso comum de nosso dia-a-dia.

No entanto, os entrevistados propõem irmos além e visualizarmos o objeto de estudo por dentro, pelo que há de mais intrínseco e secreto: seus valores, talvez adquiridos no âmbito familiar, ou talvez adquiridos no cotidiano das ruas. E é assim, inclusive, que desejam ser vistos no julgamento que se realiza todos os dias, no grande tribunal das ruas: loucura, sujeira e invisibilidade; honestidade, liberdade, abandono, beleza e inteligência, são substantivos que se misturam e se perdem em nossas arguições internas, mesmo que sem querer.

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